Você realmente sabe do que está falando?

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Quando foi que todo brasileiro virou cientista político? Quando foi que a opinião superficial virou o argumento inabalável, o fato concreto que impede a discussão? A máxima é que contra fatos não há argumentos, porém quem é que realmente conhece os fatos? Na era da internet todo mundo tem uma opinião e a falsa ilusão da necessidade de expressá-la. O problema que se impõe, portanto, são as consequências dessas opiniões no mundo real e no mundo virtual.

Há mais de uma década Leonid Rozenblit e Frank Keil (2002) da Universidade de Yale demonstraram o que se conhece em Psicologia como “a ilusão de profundidade explicativa”. Esse nome difícil revela uma coisa muito simples de explicar: as pessoas pensam que sabem mais sobre as coisas do que realmente sabem. De modo geral, nós temos apenas uma compreensão superficial sobre a maioria das coisas mais comuns do nosso cotidiano, porém nós temos a ilusão de uma compreensão profunda e detalhada. Todo mundo acha que sabe como funcionam um velocímetro de carro, um vaso sanitário, uma televisão ou o que quer que seja comum em nosso cotidiano. Porém, o quão bem nós realmente sabemos como essas coisas funcionam? O conhecimento da superficialidade não é o conhecimento da estrutura!

Obviamente nós não precisamos do conhecimento em profundidade para usar muitas dessas coisas, porém temos a “necessidade” da ilusão de que conhecemos em profundidade. Nós confundimos nossa familiaridade com as coisas com a crença de que conhecemos como elas funcionam. Normalmente ninguém nos testa sobre esses conhecimentos e por isso não nos damos contas de nossos limites. Ninguém nos testa, exceto por algumas crianças que fazem tantas “perguntas de porquê” que acabam colocando seus pais em maus lençóis, ao ponto de criarem algumas “mentiras explicativas”. Na ausência de uma compreensão adequada sobre os fatos, a mente voa e as opiniões fantasiosas se proliferam. Uma mentira contada repetidas vezes torna-se uma “falsa verdade”.

A realidade é que o cérebro precisa da ilusão de que tudo funciona perfeitamente, a ilusão de que todas as coisas estão completas quando na realidade não estão. O recente caso do vestido que “mudava de cores”, mostra muito bem como o cérebro pode criar falsas realidades ou diferentes opiniões. Mesmo com poucas informações o cérebro tende a preencher as lacunas e criar atalhos para evitar processar a mesma informação repetidas vezes. Quando estamos aprendendo a dirigir, por exemplo, é preciso pensar em cada passo a ser feito, porém com prática ninguém mais fica pensando, fazemos as coisas de forma automática. O mesmo funciona com os discursos, uma vez que pensamos entender algo nós repetimos à exaustão. Novamente, ainda que essa repetição seja de um fato que não temos certeza ou de que nem se trate da realidade.

Os psicólogos chamam essa tendência de criar atalhos mentais quando tomamos decisões ou fazemos avaliações de “hipótese da avareza cognitiva”, ou seja do mínimo esforço cognitivo necessário. Seria muito complicado lidar com a profundidade dos assuntos em todas as coisas do nosso cotidiano. Krueger e Funder (2004) definem a hipótese da avareza cognitiva como sendo o uso de recursos mentais limitados, dependência de estímulos irrelevantes, e as dificuldades de realizar esforços de correção. Em síntese, nos nós deixamos levar mais pela superficialidade do que pela realidade. Nesse sentido, como os autores alertam os fatos irrelevantes passam a ser justamente os principais a serem utilizados para sustentar os discursos vazios.

Assim, o que vemos atualmente nas redes sociais e mesmo nos noticiários são uma profusão de argumentos frágeis, contraditórios e superficiais, muitos deles endossados por personalidades de diferentes áreas que mal sabem do que estão falando. Cujas opiniões pouco diferem das minhas ou das suas. Aliás, a retórica Aristotélica já utilizava o argumento de autoridade como forma de convencer o leitor. De acordo com Reboul (2004, p. 177) “o argumento de autoridade justifica uma afirmação baseando-se no valor de seu autor: Aristóteles dixit, Aristóteles disse”. De tal forma, que mesmo meu texto agora se baseia em argumentos de autoridade e eu os uso para tentar te convencer de meu ponto de vista. Se você analisar meus argumentos verá que se baseiam no fato de eu ser um cientista psicológico e me basear em argumentos de estudos científicos, citando inclusive um estudo da Universidade de Yale que tem por si um certo peso social.

Desse modo, mais cuidado com os que você compartilha nas redes sociais, mais cuidado com o que você pensa que sabe, “talvez” sua compreensão sobre os fatos seja apenas superficial. Aliás, também é bom refletir sobre qual o peso de quem é que está falando. Pouco importa se alguém famoso expressa sua opinião, não necessariamente é uma opinião adequada, o papel imprime qualquer coisa, a internet também aceita qualquer coisa. Não se julga um discurso apenas pela força de seu autor.

Para concluir, gostaria de chamar à atenção ao discurso superficial recorrente de que uma mídia ou outra imprime uma forma específica de pensar. Esse argumento é um tanto tolo, frágil e pueril. É óbvio que cada mídia tem uma forma de pensar e de expressar suas opiniões, tal qual cada um tem a sua forma de se expressar e suas próprias crenças. No entanto, a única forma verdadeira de manipular alguém é deixando as pessoas na ignorância, sem estudos, sem conhecimento, isso sim faz com que fiquem vulneráveis aos ventos de qualquer direção. Por fim, democracia não significa apenas ter que lidar com a vontade da maioria, mas também lidar com as opiniões contrárias as opiniões da maioria.

Referências:

Reboul, O. (2004). Introdução à retórica. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes

Krueger, J., and Funder, D. C. (2004). Towards a balanced social psychology: Causes, consequences and cures for the problem-seeking approach to social cognition and behavior. Behavioral and Brain Sciences, 27, 313–76.

Rozenblit, L., & Keil, F. (2002). The misunderstood limits of folk science: an illusion of explanatory depth. Cognitive Science, 26(5), 521–562. doi:10.1207/s15516709cog2605_1

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comentários

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Renan Sargiani

Doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), é Psicólogo (CRP/06 109086) e Bacharel em Psicologia (Universidade Cruzeiro do Sul) e Mestre em Psicologia da Educação (PUC-SP) e Atua principalmente nas áreas de Psicologia Escolar/Educacional, Psicologia Cognitiva, Neurociência Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento Humano. É fundador do Psicologia Explica e suas especialidades incluem: desenvolvimento cognitivo e da linguagem, alfabetização, desenvolvimento e educação infantil e avaliação de habilidades cognitivas.

  • Glaucia Rezende

    Gostei… a impressão que eu tenho é que nunca houve na história da humanidade tanta oferta de informação e debates sobre todo tipo de assunto…rs…

    Gerencio algumas fan pages no Facebook e noto comentários fervorosos sobre política, religião, sexualidade…etc…. e, infelizmente, muitos comentários grosseiros.

    Muita informação = conhecimento?
    ou inchaço vazio … confuso…

    Só digo uma coisa… que não digo nada.. =))))

    • sargiani

      Exatamente Glaucia! Todo mundo tem algum nível de conhecimento sobre qualquer coisa e com tantas opções para discussões é natural que surjam milhares de discussões o tempo todo. O grande problema são as discussões fervorosas que surgem e muitas delas são discussões esvaziadas de conteúdo. Quando as discussões saem do campo intelectual elas passam a ser discussões agressivas e passionais. Enfim, como diria Fernando Pessoa “Navegar é preciso, Viver não é preciso”. Obrigado pelo comentário!

  • Lucas Leander

    não sou estudante nem formado em nada, mas tenho uma dúvida talvez simples para profissionais mas me perturba muito, já que achamos que sabemos mais do que realmente sabemos, até que ponto a psicologia realmente sabe sobre a mente humana? pergunto isso porque existem muitos testes psicotécnicos em empresas e até entrevistas com psicólogos e como que se espera exatidão de um teste se um psicologo antigo aqui no Brasil entendeu que os métodos europeus não serviam no Brasil por questões de culturas diferentes e como um mesmo teste pode servir para diversas partes deste país tão diverso? diversificação na cultura, classe social, experiências, dores, prazeres, medos. Quando sofro um teste nunca me perguntam se eu tive o que comer naquele dia e se tenho eletricidade para tomar banho quente ou se tomei banho de caneca, apenas olham resultados frios em papeis preto e branco e decidem que este ou aquele não serve sem nem mesmo ver o desempenho da pessoa brincam com a sorte de um homem. Obrigado e por favor comentem tenho mesmo muita duvida sobre

    • sargiani

      Olá Lucas, obrigado por sua pergunta! Com
      certeza sua dúvida é muito interessante e frequente. A questão é que
      primeiramente não existe isso de que um “psicólogo antigo aqui no Brasil
      entendeu que os métodos europeus não serviam no Brasil”. O que acontece é
      que a Psicologia é uma ciência com um objeto de estudos que é o ser humano e
      que sofre influências tanto biológicas quanto ambientais, culturais e
      históricas. Assim, é muito complicado e errado alguém simplesmente generalizar
      testes de uma cultura para outra. No começo da Psicologia enquanto profissão
      regulamentada no Brasil, isso na década de 1960, muitos dos testes psicológicos
      eram apenas traduzidos do inglês ou de seu idioma original, isso gerou uma série
      de problemas que foram apontados não por um mais por vários psicólogos. Desde
      então, o conselho de Psicologia tem se valido de vários especialistas que
      analisam o quão bem os testes foram adaptados e são válidos para nossa
      população. O processo de validação de um teste é complicado e muito difícil, o
      que exigir o rigor científico e métodos estatísticos avançados. Por essa razão
      muitos testes antigos são proibidos atualmente no Brasil por não preencherem
      requisitos, e os testes que são válidos e permitidos têm também seu prazo de
      validade. Nesse site http://satepsi.cfp.org.br/ você pode consultar os
      testes que estão válidos ou não para o uso no Brasil. É claro que o Brasil
      conta com uma variedade gigantesca de características, porém nas normas
      técnicas dos teste existe a descrição da população na qual esse teste foi
      validado e é possível discernir se o teste é ou não adequado para uma
      determinada pessoa. Além disso, nenhum psicólogo se baseia unicamente em
      resultados de um único teste para determinar seu diagnóstico, questões
      sobre como a pessoa está se sentindo, se está alimentada e etc, fazem parte das
      avaliações e devem ser consideradas. No entanto, é difícil garantir que todos
      os psicólogos tenham a mesma responsabilidade de prestar a atenção a essas
      questões que são básicas e fundamentais em avaliação psicológica. Além disso,
      em algumas empresas é possível que pessoas que não são psicólogas apliquem
      testes psicológicos (o que é ilegal) ou outros testes que não são psicológicos,
      mas que podem parecer ser para pessoas que não conhecem. Respondendo a sua
      questão mais geral, quando falo da questão da superficialidade ela não se
      refere ao conhecimento científico, é claro que este não está isento de cair nos
      mesmos erros, porém o que me refiro é ao fato de que nós não temos como lidar
      com a profundidade de detalhes de tudo ao nosso redor, então nós acabamos por
      conhecer algumas coisas em detalhes e outras não. Um encanador sabe profundamente
      sobre encanamentos, porém não necessariamente tem conhecimentos profundos em
      política, porém ele sabe que tem que votar, que existem presidentes,
      governadores, ele tem preferências políticas etc. Do mesmo jeito que um psicólogo,
      normalmente, sabe pouquíssimo sobre canos e sobre política, porém sabe muito sobre
      Psicologia, ou deveria saber. O método científico fornece ferramentas para que
      nós exploremos questões o mais detalhadamente possível e desta forma por se
      valer desse método, em quase todas as suas abordagens, a Psicologia também aprofunda
      suas investigações sobre a mente e o comportamento humano chegando sim a
      conhecimentos muito profundos e consistentes. Não é possível (pelo menos até o
      presente momento) conhecer a mente em sua totalidade, porém conhecemos muito
      sobre como ela funciona atualmente. Espero ter ajudado a clarear um pouco suas
      ideias. Abraços