É normal sentir tristeza ou depressão no fim do ano?

É normal sentir tristeza ou depressão no fim do ano?

Você tem se sentido desanimado nos últimos dias sem saber o porquê?

Pode ser por causa das festas de fim de ano; sentir-se triste nesse período é mais comum do que você imagina.

Não há dados oficiais ou pesquisas que comprovem o aumento das taxas de suicídio ou de incidência de depressão nesse período do ano. Mas costumamos observar um aumento na procura por ajuda psicológica nessa época.

Em serviços públicos de saúde e clínicas particulares, é comum haver um aumento do número de casos de pessoas em elevado grau de sofrimento, depressivas e até mesmo com ideações suicidas.

O risco é sério!

No Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que oferece apoio emocional e prevenção do suicídio 24 horas por dia, o número de ligações recebidas costuma aumentar em média 15% no mês de dezembro.

Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, o número de registro de suicídios e tentativas também aumenta no país norte-americano. Nesse período, muitas pessoas experimentam melancolia e até depressão; hospitais e forças policiais registram aumento de suicídios e tentativas. Psicólogos e psiquiatras também observam aumento da procura de pessoas com queixa de depressão em seus consultórios (confira aqui).

Mas por que isso costuma acontecer? O que o período de fim de ano provoca nas pessoas para que se sintam emocionalmente mais vulneráveis?

Em primeiro lugar, é preciso diferenciar tristeza de depressão. É comum haver confusão entre os termos, tratando-os como sinônimos, principalmente em uma sociedade que valoriza emoções e sentimentos “positivos” em detrimento daqueles considerados “negativos”. Sendo assim, uma pessoa que se sente triste pode acabar sendo considerada depressiva por aqueles que estão à sua volta simplesmente porque não há muito espaço ou tolerância para sentimentos “negativos” em nossa sociedade. Coloco os termos entre aspas porque considero-os inadequados, apesar de populares. O fato de atribuir um valor negativo aos sentimentos que causam dor contribui para a estigmatização destes. Todos os sentimentos e emoções, sejam eles prazerosos ou dolorosos, têm uma função em nossa saúde emocional, contribuindo para o nosso autoconhecimento, crescimento pessoal e para as relações interpessoais, portanto, não devem ser classificados como “bons” e “ruins”, “positivos” ou “negativos”. Dito isto, vamos à diferenciação.

Tristeza ou Depressão?

Tristeza é um sentimento comum, experimentado por qualquer pessoa diante de uma dada situação, assim como alegria, raiva, etc. A tristeza tem papel fundamental em nossa vida e não deve ser vista como inimiga. Logo, não precisamos fugir dela, ao contrário, devemos nos permitir senti-la para que possamos compreendê-la melhor e aceitá-la como parte das vivências humanas.

Já a depressão é um transtorno mental caracterizado por sintomas específicos e recorrentes, sendo causado por uma série de fatores – biológicos psicológicos e sociais – e devendo ser tratado com a ajuda de profissionais preparados, como psicólogos e psiquiatras.

As principais características de uma pessoa com depressão envolvem o humor deprimido e a perda de interesse ou prazer por atividades cotidianas. Além disso, a pessoa também pode apresentar sintomas como perda ou ganho considerável de peso sem estar de dieta; aumento ou diminuição de apetite; alterações no sono (insônia ou sono excessivo); agitação ou lentidão de fala e movimentos; perda de energia; cansaço excessivo; sentimento de inutilidade ou de culpa excessiva; dificuldade de raciocínio, de concentração e de tomar decisões; pensamentos de morte e desejo de morrer, podendo culminar em tentativa de suicídio. Todos estes sintomas causam sofrimento e trazem grande prejuízo à pessoa de modo geral, como nas relações sociais ou no trabalho, por exemplo.

O diagnóstico de depressão exige a presença de mais de cinco dos sintomas citados acima ao longo dos dias.

Agora que você já sabe a diferença entre ambos, vamos às possíveis contribuições do período de Natal e Ano Novo para esses sentimentos de mal estar psicológico.

O Clima de Natal

Em nossa cultura, o Natal está associado a coisas boas como presentes, confraternizações entre amigos e mais tempo em família (saiba mais aqui).

Como vivemos em uma sociedade marcada por valores cristãos, é praticamente impossível alguém ficar imune ao clima de Natal, ainda que não seja adepto do cristianismo. Somos bombardeados por campanhas natalinas que, embora sejam de cunho comercial, nos colocam em contato com essa festividade.

É difícil escapar desse tempo de reflexão e de reuniões familiares…

Aquela pessoa da família que nos magoou e somos obrigados a reencontrar e fingir não haver ressentimentos em nome do espírito natalino; aquele familiar ou amigo querido que se afastou e não nos procura mais; a lembrança de um tempo passado, onde as coisas pareciam melhores (ex.: um determinado parente ou amigo que estava mais próximo e hoje se afastou, a família estava mais unida, sua situação econômica era mais confortável, etc). Enfim, esse período  nos coloca diante de encontros físicos e/ou emocionais indesejados, os quais ainda não nos sentimos preparados para encarar.

Além disso, a perda de familiares ou amigos que falecem próximo às festividades, torna a lembrança ainda mais marcante e a época passa a ter um significado doloroso.

Você se depara a todo momento com votos de felicidades, paz, união, quando na verdade o que sente é desânimo, tristeza, desesperança. Muitas vezes esses votos acabam exercendo uma pressão ainda maior sobre você, que acaba se culpando por se sentir dessa forma quando na verdade deveria estar alegre, animado. Para não “estragar” o clima, você acaba abafando esses sentimentos, dá um sorriso amarelo e repete mecanicamente os mesmos votos àqueles que estão à sua volta, na esperança de que todo esse ritual acabe logo e a rotina volte ao normal.

O que você gostaria, de verdade, é que alguém enxergasse como você está se sentindo e parasse de desejar alegria a todo custo. Afinal, ela parece estar muito distante de você nesse momento. E quanto mais você se esforça por alcançá-la, mais distante ela parece estar.

O Ano Novo: balanço e expectativas para o futuro

Temos um calendário que nos dá a noção de ciclos; um ano tem começo, meio e fim. O fim de um ciclo geralmente nos faz refletir sobre ele, fazendo um balanço do que vivemos de bom e ruim. No fim do ano geralmente tiramos alguns dias de folga, diminuindo os afazeres do dia a dia. Essa pausa abre espaço para uma reflexão sobre o que fizemos de janeiro a dezembro, do que mudou em nossas vidas. Aí também entra uma reflexão sobre o que desejamos que seja diferente daqui para frente.

É no fim do ano que muitas pessoas costumam parar e refletir sobre o que realizaram durante o ano que passou. Muitos, apesar de terem vivido muitas coisas boas, sentem-se desmotivados porque não conquistaram tudo que gostariam, ou têm a sensação de que poderiam ter conquistado muito mais. Isso pode ocorrer em função da sociedade que valoriza determinados tipos de conquista em detrimento de outros. Por exemplo, é mais valorizado socialmente aquele que trocou de carro do que aquele que mantém uma vida financeira saudável, ainda que para isso tenha de abrir mão de alguns luxos.

Cuidado com as metas e com o apego aos bens materiais

Além disso, muitas pessoas traçam metas elevadas, pautadas em valores exaltados pela sociedade, mas que muitas vezes não correspondem ao que realmente almejam para si. Nesse caso, você pode até ter conquistado muitas coisas, ter tido sucesso profissional concretizado em uma promoção, um bom aumento de salário; pode ter feito uma viagem internacional que muitos adorariam ter feito, etc. Aos olhos dos outros você teve sucesso e você também vibrou com essas conquistas, mas nesse período, em função do apelo sentimental, você pode sentir um vazio sem explicação e as conquistas passam a não ter mais o valor que tiveram quando você as alcançou. De modo geral, esse período de festas pode trazer à tona experiências dolorosas de perda ou reflexões sobre o que está faltando em sua vida.

Além do que já foi citado, neste ano há um agravante: atravessamos um período crítico de incertezas na economia, inflação e aumento do desemprego. Esses fatores contribuem ainda mais para a instalação do medo, ansiedade e stress em relação ao futuro que não parece nada animador.

Embora o dinheiro não traga, por si só, felicidade e bem-estar, ele é importante para garantir o acesso a serviços e produtos necessários à nossa sobrevivência. E perder o emprego é um evento muito estressante, que pode desencadear ou agravar danos à saúde de modo geral. Como não atender aos apelos de um filho que pede um “presente do Papai Noel” no Natal? Se você felizmente não está nessa situação, dá para imaginar como se sente alguém que passa por isso, não é mesmo?

O que fazer?

Vários são os aspectos que contribuem para que uma pessoa se sinta triste ou depressiva no fim do ano. Se você tem sentido esse período como algo pesado ou difícil, se deseja fugir para um lugar bem longe ou dormir e acordar apenas no ano que vem, se você tem se sentido desanimado, sem vontade de enfrentar as situações, e acredita que a morte seria uma opção para acabar com seu sofrimento de uma vez por todas, procure ajuda.

Fale sobre isso com alguém próximo, converse sobre esse sentimento de desamparo com alguém. Mas escolha uma pessoa que você acredita que não irá tentar te convencer que isso é uma bobagem e procure ajuda profissional.

Talvez você não se sinta assim, mas essa pode ser a realidade de um familiar ou amigo. Neste caso, esteja atento, ofereça apoio e ajude-o a buscar o tratamento adequado. Ao contrário do que se pensa, falar sobre o assunto ajuda a superar o problema e não piora a condição da pessoa em depressão.

Contatos:

193 – bombeiros

141 – CVV atendimento gratuito 24 horas por dia

http://www.cvv.org.br – atendimento online CVV via chat ou skype

2018-01-14T14:05:51+00:00

About the Author:

Psicóloga (CRP 06/117017) e Mestre em Psicologia pela PUC Campinas. Atua como docente nas Faculdades Integradas Einstein de Limeira e na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Além disso, atua como psicoterapeuta na Abordagem Centrada na Pessoa.