Todos nascemos cópias e morremos originais

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1980

Na história da humanidade, os mitos e explicações mágicas foram fundamentais para explicar todos os fenômenos que os seres humanos não conseguiam explicar apenas por observação direta. Assim, ao ver um raio produzindo fogo os homens atribuíam esse fenômeno a uma entidade mágica como um deus, ninfa, espírito e outros. A mitologia greco-romana talvez seja a mais conhecida e que demonstre isso com maior clareza, existiam deusa do amor, deusa da sabedoria, deus da morte, deus dos mares e etc. Nas populações indígenas brasileiras existiam deuses da chuva, da coleta, dos trovões etc.

Com o avanço das ciências e das sociedades cada vez menos explicações mágicas e fantasiosas foram necessárias, uma vez que, as explicações para os fenômenos podiam ser encontradas no estudo dos próprios fenômenos e em suas interações com outros fenômenos. A invenção da escrita sem dúvida possibilitou grande parte desses avanços científicos ao possibilitar o registro das informações obtidas por outros. Desse modo, a escrita permitiu que novos cientistas não precisassem descobrir tudo de novo – reinventar a roda – mas, sim avançar sobre o já conhecido, como diria Sir Isaac Newton “Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.”

Nesse sentido, Freud, por exemplo, se utilizou de mitos importantes (como o mito de Édipo) para explicar o psiquismo que até então, no século XIX, era uma coisa praticamente desconhecida. Essas explicações de Freud sobre o psiquismo, assim como no mito que se espelham, são também outros mitos por si mesmas. As hipóteses freudianas são importantes com marcos históricos assim como os mitos foram antes, mas no atual estado de ciências que estamos, as evidências produzidas pela Psicologia e áreas correlatas como as Neurociências possibilitam explicações menos míticas e mais científicas, ainda que não tenhamos todas as explicações.

A própria origem do termo Psicologia se baseia em um mito, já que Psiquê, em grego se refere à alma, borboleta, mas especificamente a personificação da alma e o sopro divino. Psico-logia seria, portanto, em sua origem etimológica o estudo da alma. Entenda-se que a crítica não é diretamente a Freud ou a Psicanálise, mas sim as explicações míticas na Psicologia. Não temos energia libidinal que rege o psiquismo, temos potenciais de ação que são energia elétrica. Não temos id, ego, superego, temos neurônios. A mente não é uma estrutura mágica ou de outra natureza, é simplesmente o funcionamento do cérebro, 1,5kg (média) de massa cinzenta e branca.

Outro exemplo de mito é uma frase comumente atribuída a Jung (embora eu não tenha certeza de que foi ele que falou) é “Todos nascemos originais e morremos cópias”, o mais apropriado, no atual conhecimento das ciências psicológicas seria basicamente o inverso “Todos nascemos cópias e morremos originais”. Explico, nós nascemos cópias do DNA de nossos pais, e mesmo assim já nascemos diferentes dos pais (portanto, não cópias exatas), porque somos, em grossos termos, a combinação do DNA dos dois (essa combinação é muito aleatória, assim existe muitas variações nas características que serão ou não manifestas).

No entanto, grande parte de nossos comportamentos e características quando adultos são aprendidas socialmente, são produto da ontogenia, não da filogenia, ou seja, são frutos da nossa própria experiência e não apenas das pré-programações dos genes. De tal modo, que mesmo gêmeos que nascem idênticos (cópias), terão muitas características físicas (cor de cabelo, tatuagens etc) ou psicológicas (idiomas que aprendeu, humor, experiências afetivas) que serão únicas e, portanto, originais quando adultos. Evidentemente que foram aprendidas por copiar os outros, mas não são cópias perfeitas, são apropriações (seleção de uns e rejeição de outros) de milhares de aspectos.

O que quero dizer é que é fundamental que fique claro que a Psicologia é, sobretudo, uma ciência e como tal se baseia no método científico de produção de conhecimento. Em outras palavras, a Psicologia (ou os psicólogos) fazem perguntas, criam métodos de investigação, produzem evidências replicáveis e comunicam a sociedade científica e a comunidade geral. Ressalto que não temos todas as explicações como nenhuma ciência tem (ainda?), mas também não precisamos mais, atualmente, de algumas explicações míticas/românticas, a não ser nos livros de história da psicologia. Não estou dizendo que temos que rejeitar as explicações do passado, mas sim que ao nos contentarmos apenas com as respostas míticas deixamos de lado as informações mais recentes e não avançamos.

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comentários

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Renan Sargiani
Psicólogo (CRP/06 109086) e Bacharel em Psicologia (Universidade Cruzeiro do Sul), Mestre em Psicologia da Educação (PUC-SP) e Doutorando em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP). Atua principalmente nas áreas de Psicologia Escolar/Educacional, Psicologia Cognitiva, Neurociência Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento Humano. É fundador do Psicologia Explica e suas especialidades incluem: desenvolvimento cognitivo e da linguagem, alfabetização, desenvolvimento e educação infantil e avaliação de habilidades cognitivas.
  • Regina Milone

    Boa noite, Renan Sargiani.
    Gosto de muita coisa na TCC, que parece ser a linha que você segue, dentro da Psicologia, mas, nesse seu texto, você afirma coisas que não são bem assim. Os mitos não foram usados, por Freud nem por Jung, como “explicações mágicas”, da mesma forma que civilizações antigas faziam para explicar o que ainda não entendiam ou sabiam sobre o mundo. Os mitos, na visão das psicologias mais analíticas, são formas simbólicas e metafóricas de se falar da subjetividade humana, que transcende a questão do funcionamento do cérebro. As descobertas das neurociências são louváveis, mas só explicam parte do comportamento humano e de suas emoções. Que figuras tristes seríamos nós, seres humanos, se coubéssemos apenas em “explicações” desse tipo! Seria o mesmo que pensar num mundo sem nenhuma poesia, dominado apenas por máquinas!!!
    Quando Jung diz que “Todos nascemos originais e morremos cópias”, ele está falando das personas (máscaras) que desenvolvemos para viver em sociedade e do quanto elas, infelizmente, acabam assumindo o controle de nós mesmos, criando cópias mais “bem adaptadas” ao mundo “normal”. Por isso, Jung desenvolveu o conceito de “individuação”, que é o processo através do qual podemos redescobrir nossa essência e fazer, dessa maneira, escolhas mais conscientes na vida. Se nos comprometemos com o processo de individuação, estaremos, ao longo da vida, fazendo esse resgate e, ao mesmo tempo, criando e recriando o novo, dentro e fora de nós. É vida em movimento!
    Como junguiana, mesmo tendo que simplificar bastante alguns pontos importantes da Psicologia Analítica do Jung aqui, espero ter contribuído, de alguma forma.
    De qualquer maneira, gostei de seu texto, compartilhei no facebook e lhe parabenizo pela escolha do assunto!
    Abraços,
    Regina Milone.

    • sargiani

      Olá Regina,

      Muito obrigado por seu comentário e por divulgar o
      texto! É muito bom ouvir um feedback. Eu não sigo TCC, eu sou um
      psicólogo do desenvolvimento, trabalho com Neurociências e abordagens
      Conexionistas em Psicologia Cognitiva.
      Seu comentário foi muito
      enriquecedor. Sugiro que escreva mais sobre isso e envie para nós, seria
      bom contar com sua colaboração. Você escreve muito bem!
      Quando uso o
      termo “explicações mágicas” estou me referindo a como as pessoas na
      antiguidade criavam explicações sobrenaturais para fenômenos naturais
      que desconheciam. Essa é a base dos mitos aliás, portanto de certo modo
      mesmo Freud e Jung usavam isso, o que não desmerece o trabalho deles.
      Não é exclusividade deles, nem um erro, é o que nós fazemos o tempo todo
      quando não entendemos plenamente ou queremos explicar um fenômeno, nós
      utilizamos metáforas que facilitam a compreensão. Mesmo atualmente temos
      diversas metáforas em Psicologia. A crítica desse texto não é ao uso de
      metáforas, mas sim ao fato de que muitas pessoas, principalmente no
      Brasil, continuam negando as contribuições atuais da Psicologia achando
      que bastam as explicações antigas e desatualizadas. O mundo mudou, as
      ciência avançou e a Psicologia do século XXI não é mais a Psicologia do
      início do século XX. A mensagem aqui é que Psicologia é uma ciência, e
      como ciência testa hipóteses que podem reformular teorias, as teorias
      não são imutáveis e nem infalíveis.

      Obrigado pelo comentário.

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