Por que psicólogos estudam a alfabetização?

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Embora muita gente pense que a alfabetização é um tema exclusivo da Educação e, portanto, tema de estudos de professores e pedagogos, isso não é verdade. Existem muitos psicólogos que estudam e se interessam pela alfabetização, e esse é um tema fundamental para todos os psicólogos que lidam com crianças.

Quando as crianças ingressam na escola, elas devem necessariamente aprender três habilidades fundamentais para o sucesso escolar: ler, escrever e contar. Embora muitos argumentem em favor da ampliação das “funções” da escola, não se pode negar que este é essencialmente um espaço de formação e de transmissão dos conhecimentos construídos ao longo de diferentes gerações e culturas. É importante frisar que esses conhecimentos são transmitidos, sobretudo, por meio de conteúdos escritos.

Ler, escrever e contar são as chaves para o sucesso escolar

Para obter sucesso no processo de escolarização é preciso adquirir antes as habilidades de ler, escrever e contar, uma vez que essas estão na base da grande maioria das aprendizagens escolares. Não é preciso muito esforço para perceber que independentemente da disciplina, seja História, Português, Física, Biologia ou Matemática, as crianças precisam conseguir ler e compreender os textos e escrever seus conhecimentos para terem sucesso na escola.

Nesse sentido, a alfabetização é um objetivo primordial na educação escolar. É claro que não estou  desconsiderando a importância da matemática, mas selecionando um problema mais especifico que é o da alfabetização. Sem boas habilidades de leitura e de escrita também não será possível avançar nos conhecimentos matemáticos como a compreensão e resolução de problemas de aritmética.

Por que os psicólogos devem se preocupar com a alfabetização?

Analisar completamente o que fazemos quando lemos seria o ápice das realizações do psicólogo, pois equivaleria a descrever muitos dos processos mais intricados da mente humana. (Huey, 1968, citado por Snowling e Hulme, 2013, p.xiii)

Muitas pesquisas mostram que quando psicólogos, quer sejam clínicos ou escolares, recebem crianças como pacientes/clientes, a maioria das queixas são referentes a problemas escolares. Grande parte dessas queixas é de dificuldades de aprendizagem, embora existam outras, como, por exemplo, violência e agressividade.

Quando essas queixas são analisadas (adequadamente) observa-se que boa parte delas, incluindo as de violência e agressividade, podem estar relacionadas com as dificuldades em acompanhar as atividades em sala de aula. Muitas vezes os alunos não conseguem compreender e executar as tarefas dadas pelas professoras e então passam a fazer qualquer outra coisa na sala de aula, como agredir verbal ou fisicamente. Essas dificuldades de aprendizagem, na maioria das vezes, então são na realidade dificuldades de leitura e de escrita.

A maior parte das dificuldades de leitura e de escrita não são “problemas da criança”, mas sim problemas de ensino. Como já discuti em outro artigo (veja aqui), todos são capazes de aprender desde que lhe sejam dadas condições apropriadas.  É preciso, portanto, verificar quais são as formas de ensino adotadas e como a mudança nessas formas pode beneficiar a aprendizagem dessas crianças.

Além disso, é no mínimo estranho que uma criança que conseguiu aprender a andar, falar, fazer compras para sua mãe na padaria e cuidar do irmãozinho menor, por exemplo,  não consiga também aprender a ler e a escrever. Por esta razão, insisto que mais além de dificuldades de aprendizagem, é necessário compreender as condições de ensino primeiramente, para depois então passar a pensar em dificuldades do próprio indivíduo.

O papel do psicólogo e as atividades de alfabetização

É essencial que psicólogos conheçam o modo pelo qual as pessoas aprendem a ler e a escrever, para então conseguirem fazer avaliações mais apropriadas das queixas escolares. Afinal de contas, quando uma criança começa a ter dificuldades escolares, o psicólogo é um dos primeiros profissionais que as escolas e as famílias procuram.  É preciso, portanto, que este psicólogo conheça as práticas educacionais e as evidências científicas acerca da aprendizagem da leitura e da escrita.

Os psicólogos que verificam que as crianças possuem dificuldades relacionadas com a aprendizagem da leitura e da escrita não irão ensinar as crianças a ler e a escrever, mas podem orientar os professores e pais acerca de atividades que podem auxiliar na alfabetização.  Como por exemplo, a leitura compartilhada, tarefas de consciência fonológica e o ensino deliberado de relações entre letras e sons.

Há pelo menos 40 anos a Psicologia Cognitiva vem demonstrando como as crianças aprendem a ler e a escrever e, por conseguinte, contribuindo para a decisão de quais são os métodos mais eficientes para se ensinar essas habilidades. Os psicólogos podem e devem se instrumentalizar desses conhecimentos para poder auxiliar os pais e professores durante o processo de alfabetização.

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Para concluir, é importante retomar que grande parte das queixas escolares tem relação com a alfabetização, e é por esta razão que psicólogos se interessam pelo tema há muitos anos. Além disso, os psicólogos são os profissionais responsáveis pelo estudo do desenvolvimento humano e dos mecanismos de aprendizagem, e assim podem contribuir muito para melhores práticas de ensino e para ajudar na solução dessas queixas escolares.

Referência: Snowling, M. J. & Hulme, C. (orgs.). (2013). A Ciência da Leitura. Porto Alegre: Penso.

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Renan Sargiani
Doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), é Psicólogo (CRP/06 109086) e Bacharel em Psicologia (Universidade Cruzeiro do Sul) e Mestre em Psicologia da Educação (PUC-SP) e Atua principalmente nas áreas de Psicologia Escolar/Educacional, Psicologia Cognitiva, Neurociência Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento Humano. É fundador do Psicologia Explica e suas especialidades incluem: desenvolvimento cognitivo e da linguagem, alfabetização, desenvolvimento e educação infantil e avaliação de habilidades cognitivas.