Perseverança vs teimosia: ser sábio é ser flexível!

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Nesta época do ano, em que todos nós adoramos fazer as famosas listinhas de resoluções de ano novo, aproveito para discutir  sobre um tema muito relacionado a metas e objetivos, a:  perseguir sonhos e traçar planos de vida.

Todos os dias, em facebook’s e outras redes sociais, pipocam mensagens sobre determinação e sobre o quanto os nossos sonhos são todos possíveis, bastando a nós acreditarmos e seguirmos obstinadamente em frente. De vez em quando, a mensagem possui um tom motivador e cativante, mas não é raro que esse tipo de discurso desperte em mim um certo temor. Lendo frases do tipo “sem dor, sem ganho”, ou “o que uns chamam obsessão eu chamo de dedicação” e congêneres, volta e meia eu me percebo questionando: “Esse daí é um perseverante ou é um teimoso mesmo??”

Você já parou para pensar na linha fininha que separa esses dois tipos de atitude? Por que é que de vez em quando, chamamos Fulano de “determinado” e Sicrano de “teimoso”? Qual é a diferença entre um e outro? Quando saber a hora de parar de ser teimoso, ao invés de se achar super perseverante e ficar dando murros em ponta de faca?

Uma questão de resultado?

No senso comum , cotidiano, o que separa um teimoso de um perseverante costuma ser o resultado. Frequentemente, alguém começa algo e dali um tempo, se sua empreitada não deu certo, passamos a chamá-lo de teimoso. Podemos dizer que existe um “continuum”, uma gradação, de persistência, como numa escala que sai do branco, passa por tons de cinza, e finalmente chega ao preto. Numa ponta está o “desistente”, ou seja, alguém que não persiste , em absoluto, naquilo que faz, e que abandona a empreitada tão logo encontra uma dificuldade. Na outra ponta está o teimoso – aquele que não desiste nunca, apesar de todas as dificuldades e obstáculos. No “recheio” desta escala, encontra-se o hesitante, o determinado, o persistente etc.

Por vezes, assumimos comportamentos que deixam margem a dúvidas sobre onde exatamente estamos nos situando dentro desta gradação. A pergunta em questão deve ser: quando é a hora de parar?
Se, mais uma vez, usarmos o resultado como uma referência, podemos adotar um raciocínio bastante simples, que é revisar o planejamento básico envolvido quando lidamos com metas e comportamentos eficazes para atingi-las. De maneira bem resumida, ele envolve:

(1)    Especificação da meta: descrição detalhada daquilo que desejamos alcançar;
(2)    Determinação de prazo: estipulação de um período mais ou menos específico de tempo para alcançar este objetivo;
(3)    Comportamentos-alvo: aquilo que precisaremos fazer para alcançar nossa meta; e
(4)    Previsão de obstáculos: o que pode dificultar nossa jornada.

Quando observamos alguém que está há bastante tempo tentando ter sucesso em algo, algumas coisas podem nos confundir na hora de avaliar se a pessoa está sendo teimosa ou determinada, mas com um exame rápido dos itens descritos acima, fica mais fácil identificar.
Algumas perguntas podem nos ajudar: essa insistência salta aos olhos por causa do tempo em que perdura? Ou por causa dos resultados que obteve em experiências passadas?  Pela inconsistência do comportamento necessário? Pela não-observação das dificuldades no caminho?  Pelo uso de estratégias pouco adequadas?

A importância das estratégias

Tomemos como exemplo algo muito frequente nos consultórios de Psicologia: as relações amorosas. A pessoa não está feliz, o relacionamento não vai bem, mas ainda assim ela “está tentando”. Estabelecer aquele esse comportamento como louvável, ou como inadequado, sem levar em consideração as variáveis acima citadas, pode ser um equívoco dos mais levianos, responsável por muitas confusões. E algumas coisas farão toda a diferença do mundo nesse momento – há quanto tempo essa relação está assim? Quais foram as tentativas? Quais foram os resultados obtidos? Se alguém está, por exemplo, há 10 anos tentando salvar um casamento, e não obteve nunca nenhum resultado positivo, é fácil chegarmos à conclusão de que a relação acabou, e que Fulano “precisa largar o osso”. Mas e se Fulano estiver há 10 anos tentando sempre da mesma forma (talvez levando a esposa para viajar ou lhe dando presentes caros)? O que diríamos para Fulano, então?

A análise dos comportamentos-alvos se torna, por vezes, ainda mais importante do que o impacto que o tempo de alguma empreitada exerce sobre nós. Nessa situação, os 10 anos impressionam tanto que tendemos a julgar a tentativa como fracassada. Mas se o casal em questão jamais tentou uma terapia, podemos dizer que as alternativas se esgotaram? Ou será que uma melhor orientação, no sentido de comportamentos-alvo mais eficazes, poderia ampliar as possibilidades de sucesso?
Numa esfera completamente diferente, também vemos diferenças gritantes entre aquele que é determinado e aquele que é teimoso – Beltrano já teve 5 lojas, perdeu dinheiro e foi à falência em todas elas, e está para abrir a sexta loja. O que você diria sobre Beltrano? Ele deveria desistir de abrir seu comércio, e procurar um emprego no shopping?

Novamente deveríamos analisar os itens de nossa listinha de planejamento: quais foram as dificuldades enfrentadas por Beltrano? Que tipo de obstáculos apareceram em seu caminho? Ele os está ignorando? Está fazendo a mesma coisa sempre? Se sim, possivelmente trata-se de um teimoso.

Olhemos a questão sob um ponto de vista teórico: uma célebre máxima da Psicologia Comportamental diz “o melhor preditor de comportamento futuro é o comportamento passado”. Ou seja – se algo aconteceu muitas vezes no passado, é muitíssimo provável que aconteça no futuro. E ignorar essas evidências é, sem dúvida nenhuma, teimosia. Entretanto, olhar as dificuldades passadas, e procurar por comportamentos que busquem contorná-las, é uma postura com alta chance de sucesso – ou seja, o oposto da teimosia. Portanto, se o Beltrano que está para abrir a sexta loja tiver feito um curso específico, ou se capitalizado melhor, ou estudado melhor o mercado, talvez nesta sexta tentativa ele consiga ser bem sucedido. E todos olharão para ele e dirão “Puxa vida, que persistência!”.

Os exemplos são inúmeros, mas o raciocínio será sempre basicamente o mesmo: não sabemos se estamos sendo teimosos ou perseverantes até analisarmos de pertinho nossos objetivos e nossos caminhos para chegar até ali. Tudo sempre irá depender do quão provável é que alcancemos uma meta fazendo aquilo que estamos fazendo, do jeito que estamos fazendo. Talvez a teimosia possa ser melhor definida em termos mais probabilísticos: quais as probabilidades de este comportamento me levar àquele objetivo? Se nos vemos diante de uma situação em que esta probabilidade é extremamente baixa, deveríamos considerar, de fato, a ideia de renunciar ao objetivo ou ao menos o modo de obtê-lo – e não fazê-lo seria de uma enorme teimosia.

Flexibilizar é preciso!

A crença atualmente enraizada, de que “ser brasileiro é não desistir nunca” é, sob determinado aspecto, um risco enorme. Ela incita, na ideia da desistência, um teor negativo e uma associação óbvia com o fracasso, que (também bastante enraizado) deve ser evitado com todas as forças, já que carrega, em si mesmo, a ideia de fraqueza. Diante dessa perspectiva, a teimosia se torna a expressão de uma forma rígida de perseguir um objetivo – uma forma muito mais focada em NÃO PODER fracassar, do que uma busca genuína por um sonho desejado.

Devemos, portanto, estar sempre atentos aos nossos reais motivos quando estamos buscando obstinadamente alguma coisa. Perguntar-se por que é que queremos tanto algo é uma forma bastante eficiente de compreender se estamos agindo, talvez, por esquiva – evitando entrar em contato com emoções aversivas como a frustração, raiva e tristeza. Muitas vezes, o que melhor podemos fazer é assentar o suposto fracasso, compreendê-lo, replanejar a rota e somente então tentar novamente, tornando-nos assim mais próximos à perseverança do que à teimosia.

Einstein dizia: “Não há maior sinal de loucura do que fazer uma coisa repetidamente e esperar a cada vez um resultado diferente.” Creio que ele estava coberto de razão – e ser teimoso se assemelha muito a isso: uma forma de insanidade temporária, em que você não enxerga direito que aquilo não está com cara de dar certo. Que você precisa planejar melhor o seu caminho. Ou que você precisa começar a lidar com a ideia de mudar a rota, de alterar seu objetivo. Ou que precisará pegar o seu banquinho e sair de fininho – não deu certo. É como diz o ditado: o sábio não é o forte, e sim o flexível.

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Ana Paula Varella Ferreira
Psicóloga (CRP: 06/83907) formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Terapeuta Cognitivo-Comportamental e especialista em Saúde Mental pelo Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM) – Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Atualmente, atende adolescentes e adultos em São Paulo, capital, e colabora em atividades acadêmicas e pesquisas no AMBAN – Programa de Ansiedade do Instituo de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.