Para que serve o diagnóstico em Psicoterapia?

Para que serve o diagnóstico em Psicoterapia?

Atualmente, muito se fala em transtornos da mente. Alguns chegam a afirmar que a sociedade contemporânea é marcada pelos males da ansiedade e do humor, como o Transtorno do Pânico e a Depressão. Muitos são os possíveis diagnósticos e, consequentemente, os tratamentos disponíveis para cada caso. Por outro lado, há uma grande crítica acerca da prática de diagnosticar pessoas com transtornos mentais. Mas afinal, para que serve o diagnóstico em psicoterapia? Como o profissional deve lidar com isso? E para o paciente, como encarar o recebimento de um diagnóstico?

Os profissionais de psiquiatria e psicologia se orientam por manuais diagnósticos, como o DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição, APA) e o CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, OMS). Nesses manuais, estão classificados os mais diversos transtornos mentais, divididos em categorias e com descrição minuciosa dos dados de prevalência, do curso da doença e de sua sintomatologia. A classificação de transtornos mentais indica que há sérios estudos epidemiológicos, realizados a partir de grandes amostras (ou seja, realizados com muitas, mas muitas pessoas) e que a partir de tais estudos são obtidos dados estatísticos significativos. Esses dados, por sua vez, indicam que houve uma comparação com a população geral e que, dada a semelhança entre os sintomas dos muitos indivíduos estudados, pode-se classificar um grupo de sintomas como um transtorno. Em suma, um conjunto de sintomas pode ser classificado como um transtorno quando um grande número de pessoas é estudado e apresenta sintomas em comum. E é por conta disso que o diagnóstico é útil e serve para orientar os profissionais de saúde mental em relação ao quadro geral do paciente, além de indicar os melhores tratamentos para cada caso.

O profissional de saúde mental deve ser bastante cauteloso ao tratar de questões e hipóteses diagnósticas com seus pacientes. Para começar, fechar um diagnóstico não é uma tarefa fácil ou rápida. Não é em uma ou duas sessões que se conhece bem uma pessoa ao ponto de realizar um diagnóstico preciso. É necessária uma avaliação bastante cautelosa para se chegar a qualquer conclusão. Muitas vezes, o paciente já busca o terapeuta com um diagnóstico realizado por um psiquiatra, o que agiliza o trabalho do psicólogo. De forma geral, uma vez que temos uma forte hipótese diagnóstica, o paciente deve ser orientado em relação ao seu problema para aprender a lidar melhor com ele. Em Terapia Cognitivo-Comportamental, chamamos essa fase de instrução quanto ao transtorno de psicoeducação, e é nesse período que explicamos também como será realizado o tratamento adequado.

Grande parte da problematização acerca do diagnóstico em saúde mental está relacionada às classificações. Classificar, de certo modo, é rotular. Para muitas pessoas, seres humanos são singulares, únicos, e não devem ser rotulados. Essa rotulação, por sua vez, pode se transformar em motivos para explicar e justificar a ocorrência de problemas na vida de algumas pessoas. De fato, eu mesma já vi mais de um paciente usar seu diagnóstico para justificar certos comportamentos disfuncionais. Por exemplo, “Eu não consigo sair de casa. Você sabe que eu quero, mas o pânico não deixa” ou “Sou uma pessoa muito doente, minhas manias são incontroláveis, mas ninguém entende isso”. Esse tipo de postura atrapalha o tratamento, além de estagnar (ou até piorar) o quadro. Mas como mudar significa abdicar de algumas coisas, muitos pacientes preferem conviver com seus problemas ao invés de enfrentá-los. Como profissionais, sabemos a relevância de um bom diagnóstico e se percebermos que um paciente possa estar seguindo este caminho, devemos trabalhar essa questão com ele.

Diagnósticos não definem pessoas – só definiriam se pessoas fossem reduzidas a transtornos. Pessoas são pessoas: cada uma com sua história e suas singularidades. Diagnósticos orientam profissionais de saúde em relação aos sintomas que a pessoa apresenta e ao melhor tratamento para ela. Ele não deve ser usado para rotular alguém, mas sim como um ponto de partida para uma melhora significativa.

2016-10-30T21:41:47+00:00

About the Author:

Psicóloga (CRP 05/40442) pela UFRJ, Terapeuta Cognitivo-Comportamental, Mestre em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB/UFRJ). Atua como psicóloga clínica em consultório particular. Membro da Associação de Terapeutas Cognitivos do Rio de Janeiro e da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas. Seus principais temas de estudo são os transtornos de ansiedade e de humor (com ênfase em transtornos fóbicos), além de seus respectivos tratamentos.