Abocanhando o mundo: a introjeção na Gestalt-terapia

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Somos seres de relação. Necessitamos, sim, de nos comunicarmos com o outro e com tudo o que nos rodeia, no entanto, a qualidade e intensidade dessa conexão é que vai apresentar o modo como estamos vivenciando o contato.

Esse é um termo precioso para a Gestalt terapia, uma abordagem que evidencia o contato que permeia todo o ciclo de relações do ser humano e busca torná-lo consciente de como lida com todas essas vivências. Nesse intuito, essa teoria trata dos mecanismos de defesa que o sujeito estabelece, trazendo-os para o momento presente, e sua atuação caracterizará o contato como saudável ou não.[separator type=”space”]

A introjeção e o engolir

Compondo a tipologia dos mecanismos citados, destaco para este texto a introjeção. Trata-se de uma manobra onde o sujeito simplesmente incorpora ideias, sentimentos, comportamentos e uma série de outros aspectos do ambiente. Há um processo passivo de “engolir” o que vem de fora e assim a pessoa acaba entrelaçando as próprias escolhas, preferências e opiniões com as dos outros e tendo dificuldade de diferenciar o que é realmente seu.

Ana (nome fictício) começa várias atividades de entretenimento (assistir a um filme, por exemplo) e cursos e os deixa pela metade. Até consegue se empolgar no início, mas logo seu interesse murcha como uma bexiga estourada. Quando finalmente terminou um curso de artesanato, todo o seu conhecimento e investimento de tempo foram deixados de lado, abandonados junto com o material empilhado.[separator type=”space”]

1ª pessoa do singular é a protagonista da história

Quando perguntei o que ela realmente gostava de fazer, escutei vários balbuciados que ressoavam a dúvida na resposta. Aquela simples pergunta confrontou Ana. O que estava acontecendo era que sugestões de pessoas próximas a impulsionaram para procurar tais atividades, quando na verdade ela nem ponderou se realmente sentia vontade de aprender sobre determinado assunto. O mesmo era semelhante a respeito de algumas de suas convicções.

Esse simples exemplo demonstra o quão inautêntico estava o contato de Ana com o seu meio, pois ela introjetava a opinião alheia e acabava vivenciando experiências que não aparentavam lhe trazer benefício.[separator type=”space”]

É preciso estar consciente das possibilidades de escolha para diferenciá-las

Polster & Polster (2001, p. 90) explanam bem esse ponto ao mencionarem que “ A pessoa que utiliza a introjeção minimiza as diferenças entre o que está engolindo e aquilo que poderia realmente desejar, se permitisse a si mesma fazer esta discriminação”. Não ocorrendo esse processo, o introjetivo vai engolindo tudo e ficando cheio de algo que não é dele e que o incomoda.

Há ainda aqueles que, desde crianças, conviveram com exigências, comparações e imposições de tal forma que deixaram uma espécie de carimbo em seu íntimo, e assim a pessoa vai desenvolvendo um padrão de pensamento ao sentir-se sempre fracassada, que não será capaz de concretizar algo, que nunca algo seu estará mesmo digno de apreciação. Críticas e chamadas de atenção podem ser sentidas com muita dor. E dessa forma, suas atitudes vão sendo espelho dessa maneira de encarar o mundo e a si mesma.

A música Viver Dias de Sol, do Charlie Brown Jr, traz uma mensagem interessante que pode ser relacionada com este assunto:

Não deixar ninguém controlar sua vida
Acorde e repense tudo de novo
Se libertar do que te atrasa a vida
Agora é a hora de virar o jogo

Não deixar ninguém interferir
Não se anular, viver dias de sol

Quem utiliza a introjeção vivencia esse movimento referido no trecho acima. É como se houvesse um “anular-se”, uma passividade crônica diante das experiências. Há também uma espécie de evitação do confronto com o que já vem pronto do ambiente. A pessoa simplesmente aceita. Tais aspectos tendem a torná-la ansiosa, defensiva, vítima quando desafiada a despertar bruscamente de tal condição.[separator type=”space”]

A introjeção é má? O que fazer para saber?

É preciso deixar claro que os mecanismos de defesa, por si só, não são bons nem ruins, o que vai caracterizar essa qualificação é o modo como são sentidos, experienciados e seus impactos na vida do sujeito.

A terapia é um recurso que facilita a libertação necessária ilustrada na música. Há diversas técnicas para isso e o terapeuta irá utilizá-las de acordo com a relação estabelecida com o paciente e o ritmo deste de auto percepção.

Feito isso, a pessoa terá condições de compreender sua forma de contato resistente e poderá escolher outros caminhos de ação mediante o exercício de “mastigar” o conteúdo incorporado a fim de tornar mais salutar e mais consciente sua relação com o mundo.[separator type=”space”]

Referências

Polster, E. Polster, M. (2001). Gestalt terapia integrada [trad. Sonia Augusto]. São Paulo: Summus.

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Renata Rolim
Renata Rolim é Psicóloga (CRP 02/17827) graduada em Psicologia pela Universidade de Fortaleza, 2013. Tem experiência em Gestalt, Psicologia Clínica e Organizacional.