Hipnose sem mistérios – entrevista com Diego Polo

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Hoje o Psicologia Explica traz um tema que considero instigante não apenas para psicólogos e estudantes de Psicologia, mas às pessoas de modo geral: hipnose. Atire a primeira pedra quem nunca ficou curioso ao ver uma pessoa sendo hipnotizada – seja na TV, pela internet ou ao vivo. Para se ter uma ideia, fiz alguns testes no Google para saber quais eram os termos mais buscados no site em relação ao tema; vejam os resultados:

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Como podem ver, as dúvidas são muitas e sabemos que nem sempre é fácil selecionar as informações verdadeiras em meio a tantas outras falaciosas. Pensando nisso, decidi conversar com quem estuda e entende do assunto para esclarecer algumas questões e auxiliar aqueles que se interessam em se aprofundar no estudo da hipnose. Já assisti algumas palestras e demonstrações do Diego Polo e, conhecendo seu profissionalismo, convidei-o a responder algumas perguntas e o convite foi prontamente aceito. Abaixo vocês podem conferir na íntegra a entrevista concedida pelo Diego ao Psicologia Explica.

Diego Polo é psicólogo, graduado pela PUC-Campinas (CRP 06/110.329), formado em Hipnose Ericksoniana pela Actius Consultoria e em Hipnose Clínica e Prática pela AIHCE (Associação Internacional de Hipnose Clínica e Experimental). Quem tiver interesse pode entrar em contato com ele através do e-mail diegopolo85@gmail.com, por meio de sua página no facebook www.facebook.com/hypnoclass ou deixar um comentário ao final deste post.

Como e em quais circunstâncias você conheceu a hipnose?

Meu primeiro contato formal com a Hipnose foi em 2002. Na época, eu descobri a PNL (Programação Neurolinguística) e um dos elementos estudados na PNL é a Hipnose Ericksoniana, uma escola da Hipnose associada ao psiquiatra Milton Erickson. Meu interesse inicial era utilizar as técnicas para melhorar minhas habilidades interpessoais, de comunicação e persuasão.

Comprei um livro, que se chama: Atravessando – Passagens em Psicoterapia, dos criadores da PNL, Richard Bandler e John Grinder. Esse livro é uma adaptação de uma série de workshops conduzidos por eles nos anos 70, explicando algumas das técnicas do Milton Erickson, da maneira como eles interpretavam.

Por ser formado a partir de transcrições de workshops, o livro é difícil em certos pontos, pois a Hipnose envolve uma série de elementos não-verbais, como o tom de voz e a linguagem corporal. Então mesmo com repetidas leituras, na hora de pôr as técnicas em prática eu tive grandes dificuldades, já que não sabia das sutilezas.

Porém, o grande ganho foi conhecer o conceito de Inconsciente, que na Hipnose é bem diferente do conceito tradicional da Psicanálise. Isso abriu meus olhos para uma série de possibilidades na utilização de nossos recursos mentais e na relação corpo-mente.

Encontrei algumas leituras adicionais ainda associadas a PNL, mas nada muito substancial. Naquela época, não havia Youtube ainda, a internet de banda larga era cara, e a informação ainda não era tão difundida como é hoje, então o acesso era muito restrito.

Após alguns anos, em 2005, tive a oportunidade de fazer um curso de PNL, antes mesmo de começar a graduação em Psicologia, e poder aprender as técnicas daquele livro e outras mais ao vivo, com a orientação de um profissional mais experiente. Durante o curso conheci alguns colegas que tinham estudado com o Fábio Puentes, que é o maior nome da Hipnose no Brasil, e aprendi mais técnicas.

Nesse mesmo período, fiz um curso específico de Hipnose Ericksoniana, com um discípulo do Milton Erickson, e com o surgimento do Youtube, tive a oportunidade de assistir mais vídeos, comprar DVDs pelo Amazon e aprimorar minha técnica.

Ao entrar na faculdade, em 2007, comecei a me interessar por neurociências, e comecei a pesquisar sobre como a Hipnose altera o funcionamento do cérebro das pessoas. É uma área fascinante, porém pouquíssimo divulgada. No Brasil, o primeiro livro a ter um capítulo abordando esse tema foi lançado em 2012, e o primeiro livro sobre a Neurociência da Hipnose foi lançado em 2012 nos Estados Unidos.

Eu procuro levar essas informações nas minhas apresentações porquê o trabalho de pesquisa sobre neurociência e Hipnose está relacionado com uma série de temas caros a Psicologia, como a Esquizofrenia, o mal de Parkinson, e o funcionamento dos processos cognitivos superiores como um todo.

Embora o seu interesse pela PNL tenha surgido a partir de uma necessidade pessoal, esse interesse te despertou para descobertas mais amplas, que transcendem o individual. Você foi buscar os efeitos da hipnose no cérebro humano, por exemplo…

Sim, o interesse inicial era para desenvolver uma série de habilidades interpessoais que eu não tinha, ou pelo menos não estava satisfeito, e isso ampliou muito as minhas percepções para o ser humano como um todo, as possibilidades, tanto teóricas quanto práticas de contato, comunicação efetiva e principalmente de mudança. Conforme eu aplicava as técnicas e obtinha resultados, melhorias, eu passei a acreditar e me interessar que esse processo estaria ao alcance de todos, havendo interesse e prática.

O que você descobriu a partir da investigação sobre a interface neurociência-hipnose em linhas gerais? Existe alguma alteração significativa ou permanente em relação àqueles que não foram submetidos à hipnose?

O estudo da interface hipnose-neurociência é fascinante, até porquê é um desenvolvimento muito recente dentro da neurociência, e traz consigo descobertas inovadoras do funcionamento do nosso cérebro, e em especial da relação mente-corpo. As mudanças que ocorrem durante a hipnose são temporárias, em termos fisiológicos, podendo ser repetidas, ou em certos casos, algumas sugestões duram por horas após o término do processo de hipnose.

Não há uma mudança no estado de funcionamento do cérebro que dure mais que horas, já que ao entrar em transe a pessoa “sobrecarrega” determinadas partes do córtex pré-frontal, e essa sobrecarga durar por muito tempo é algo que não é viável em termos de consumo de glucose e de adaptação (visando a sobrevivência).

O estudo da neurociência da hipnose tem elos importantes com o estudo da esquizofrenia e do mal de Parkinson, já que no começo, os pesquisadores pensaram: pessoas hipnotizadas tem alucinações, assim como os esquizofrênicos, será que existe alguma relação em termos de funcionamento e áreas afetadas? A resposta foi que sim, que as alucinações de quem está hipnotizado são funcionalmente iguais a quem tem um surto psicótico, apesar de sua origem ser diferente, ambas envolvem regiões cerebrais equivalente.

No caso do Parkinson, foi observado: assim como pessoas que sofrem do mal, certas pessoas quando hipnotizadas, realizam movimentos físicos de forma involuntária. Foi levantada uma hipótese, que ainda está sendo investigada, que a hipnose interfere de forma sutil no processo de captação da dopamina, em especial na região dorso-lateral direita do córtex pré-frontal, uma região ligada ao gânglio basal e que é responsável por coordenar as noções de tempo no nosso cérebro. Ou seja, o paciente que sofre de Parkinson, por disfunções na captação de dopamina, tem esse processo impactado, enquanto a pessoa hipnotizada, passa pelo mesmo processo porém de forma muito mais leve e temporária, tendo pequeno impacto na captação hormonal e impacto maior no funcionamento da região dorso-lateral direita.

A partir do que você apontou, ficou evidente que a hipnose não pode ser aprendida somente nos livros; há elementos muito complexos que não podem ser transmitidos em um texto. Acredito que esse aspecto é importante para aqueles que desejam estudar e praticar a hipnose com seriedade e de forma competente.

Sim, a prática das induções hipnóticas requer atenção a uma série de sinais da linguagem corporal do cliente, e a utilização de uma série de elementos na comunicação do hipnotizador. É necessário utilizar o contato visual de forma estratégica, a linguagem corporal como um todo para espelhar a do cliente, e modular a voz seguindo padrões específicos de tonalidade, volume e ritmo, para criar um condicionamento clássico, da voz do hipnoterapeuta ao estado de transe que o cliente vai vivenciar. Tudo isso só para colocar o cliente em transe, em seguida, os padrões de comunicação também requerem o conhecimento da “gramática” da comunicação hipnótica, que podem ser aprendidas através da leitura, mas a fluência só vem através da prática.

Como um idioma, você pode ler e estudar sozinho por anos, porém, ao se deparar com alguém nativo, e começar a conversar, sua capacidade de raciocínio, improviso e sua fluidez como um todo é colocada à prova. Por isso é importante a prática, e a supervisão, para se ter um feedback qualificado, como em qualquer outra modalidade de psicoterapia. A diferença principal é que na hipnose, o supervisor analisa vários elementos da técnica e da comunicação do supervisionado, enquanto em outras abordagens, esses elementos tem um papel secundário ou sequer importam na condução de uma sessão. Na hipnoterapia existe o conceito de “pre-talk”, que é um diálogo prévio que prepara o cliente para a sessão e para a hipnose, que é tão importante quanto a indução em si, pois por meio dele se supera resistências e tranquiliza o cliente quanto ao que está por vir, e qual seu papel no processo, quais expectativas ele pode ter.

Eu costumo dizer em apresentações, que quando alguém entra em transe, é a cereja do bolo, o ponto final, porquê grande parte do trabalho já foi realizado previamente para preparar a pessoa para o transe.

Quem pode ser hipnotizado?

Qualquer pessoa pode ser hipnotizada, em teoria. Não existem estatísticas corretas sobre quantas pessoas, o que existem são estimativas, então a melhor maneira de saber com certeza é procurar alguém que saiba hipnotizar e experimentar diferentes técnicas, e caso tenha dificuldade, mudar o contexto ou persistir por algum tempo.

Para que serve a hipnose? Quais as indicações?

Ela pode ser usada como coadjuvante em várias áreas da saúde, para amenizar ou eliminar a dor, pode ser usada como auxiliar ou como abordagem principal na psicoterapia, no tratamento de uma ampla variedade de doenças e sintomas, e pode ser utilizada para facilitar nos estudos, na capacidade de concentração e na redução do estresse.

Há contra indicações?

Pessoas que sofrem de esquizofrenia sendo medicadas devem evitar a hipnose, assim como pessoas que possam ter traumas ou emoções negativas associadas ao estado de relaxamento profundo e a aparente “perda” de controle.

Ao fazer o contato inicial, o hipnoterapeuta deve levantar informações sobre possíveis experiências negativas que podem acabar emparelhadas a sensação que se tem em transe, para evitar estresse durante a prática da hipnose, favorecendo uma abordagem mais gradual, para que a pessoa sinta-se mais a vontade com o transe e a mudança no seu estado de consciência.

Também é importante pensar criticamente o uso da hipnose quando um cliente tem expectativas irreais, que a técnica será uma cura milagrosa para todos seus problemas. A hipnose por si só não cura nada, ela facilita a utilização de outras técnicas que podem ajudar a melhora da pessoa, dentro dos limites conhecidos pela ciência.

Para finalizar, existem alguns mitos em torno da hipnose que gostaria que você comentasse. Algumas pessoas, por exemplo, acreditam que a hipnose é uma forma eficaz de manipular a mente de uma pessoa; outros acreditam que existe risco de o hipnotizado nunca mais sair do transe. Isso é possível?

O grande medo que as pessoas tem de ir a algum lugar, e não mais voltar, ou que uma sugestão permanece ocorrendo para sempre é infundado. A Hipnose causa sim uma sobrecarga em certos processos cognitivos de ordem superior, e por isso as sugestões do hipnotizador prevalecem sobre as vontades da pessoa hipnotizada, porém, ela jamais fará algo contra seus valores morais mais importantes, pois esses elementos contém um marcador somático expressivo, e ao serem ativados, tiram a pessoa do transe, bem como qualquer outra atividade fisiológica básica como fome, sede, vontade de ir ao banheiro, também tirará a pessoa do transe, por ser algo que o córtex pré-frontal pode modular a intensidade, mas não consegue impedir ou eliminar persistentemente.

Nos casos em que a pessoa persiste em transe, isso se dá devido ao fato de ser um estado extremamente relaxante, para o corpo e a mente da pessoa, e por vivermos num momento em que a sociedade como um todo dorme pouco, dorme mal, e está cronicamente estressada, uma sensação assim é como um oásis no deserto do cotidiano, e por isso as pessoas relutam em sair dela, mas no pior dos casos, um pouco de água fria é o suficiente para acordar a pessoa.

 

Acredito que suas respostas foram bastante esclarecedoras aos interessados no assunto. Muito obrigada!

Dúvidas, Críticas ou Sugestões? Escreva um comentário, queremos saber sua opinião!

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Nadini Brandão de Sousa
Psicóloga (CRP 06/117017) e Mestre em Psicologia pela PUC Campinas. Atua como docente nas Faculdades Integradas Einstein de Limeira e na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Além disso, atua como psicoterapeuta na Abordagem Centrada na Pessoa.