Divertida Mente – O que o novo longa da Disney explica sobre Psicologia?

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Artigo com possíveis SPOILERS. Se você continuar lendo, entende os riscos e leva isso numa boa! 😉

Nesse fim de semana, fui ao cinema para assistir o lançamento da Disney/Pixar, o aclamado Divertida Mente (Inside Out). Eu já sabia que se tratava de um filme em que os protagonistas eram as emoções básicas de uma garotinha, mas não sabia ao certo o que esperar disso além de boas piadas. Pois bem, o filme não decepciona e traz bons insights para crianças e adultos, e é por isso que achei interessante escrever essa resenha.

Divertida Mente aborda a mente de uma garotinha de 11 anos, Riley, que até o começo do longa teve uma vida estável ao lado de pais amorosos em Minessotta. Dentro da cabeça de Riley, dividiam a “sala de comando” a Alegria, a Tristeza, a Raiva, “a” Nojinho e o Medo – emoções básicas que todos nós temos, incluindo os pais de Riley. A Alegria era a emoção preponderante, mais ativa que as demais. No dia a dia de Riley são geradas memórias, na maioria das vezes alegres, que são armazenadas em “ilhas de personalidade”, como família, amizade, honestidade, bobeira/diversão e esporte. A história, no entanto, ocorre quando a menina passa por uma grande mudança em sua vida, gerando uma confusão na “sala de comando” e alterando a supremacia da Alegria – o que mais cedo ou mais tarde ocorre na vida de todos nós.

É interessante e não ocasional a escolha dos roteiristas pelas emoções que compõem a “sala de comando” de Riley. Medo, Alegria, Tristeza, Raiva e Nojo são emoções básicas humanas, ou seja, são reconhecidas por expressões faciais por todos os humanos, em qualquer lugar do planeta. Assim, pessoas das mais diversas culturas são capazes de compreender e empatizar com a simpática garotinha do filme.

O estudo sobre emoções básicas e expressões faciais vem desde Darwin, que dizia que a mente e o comportamento também são talhados pela seleção natural. Segundo ele, as emoções são inatas e servem para melhorar nossa adaptação ao mundo e aos outros. De fato, nossas emoções nos ajudam a avaliar as alternativas, oferecendo motivação para mudar ou fazer algo, e revelam nossas necessidades. Em Divertida Mente, a função das emoções é abordada de forma muito interessante. Todas elas estão ali por um motivo: a raiva aparece quando alguma injustiça é detectada, o nojo previne intoxicações (alimentares e sociais, diga-se de passagem), o medo previne lesões e garante a integridade física e psíquica, a alegria aparece nas conquistas e é um grande fator motivacional e a tristeza… Bom, vou deixar a definição da tristeza para quem for ver o filme, mas adianto que ela é bem importante!

A relação entre as emoções, que no filme são personagens, é outro ponto a favor do filme. A Alegria quer predominar, para que Riley seja mais feliz, mas a Tristeza insiste em aparecer em horas inoportunas. A tentativa da Alegria em manter a Tristeza longe chama a atenção, pois é algo que muitos de nós fazemos no nosso dia a dia: botamos um sorriso no rosto, dizemos para nós mesmos que está tudo bem e seguimos em frente, mesmo que no fundo isso não seja tão verdadeiro assim – ou seja, tendemos a invalidar nossa tristeza.

Mas se a tristeza é uma emoção básica e as emoções têm uma função importante para nossa adaptação, invalidar esse sentimento não parece muito razoável, certo? Quando a gente para e presta atenção no que nossas emoções dizem sobre a gente e para a gente, entendemos que elas apontam na direção de alguns valores importantes para a gente podem estar sendo atingidos pelos acontecimentos externos ou por determinados comportamentos nossos. Essa validação é importante pra gente poder fazer alguma coisa por nós mesmos!

Falando em valores, eles ganham destaque na arquitetura da mente de Riley. As tais “ilhas da personalidade” são valores pessoais da menina, ou seja, as coisas que são muito importantes para ela. Quando os valores são abalados, as emoções também o são e vice versa. E aí, os comportamentos começam a se tornar disfuncionais, levando as emoções a uma pane geral – a tal da apatia. A forma como o filme mostra isso para as crianças é simples e objetiva: apesar de quase todas as emoções tentarem muito, nenhuma delas conseguia operar o painel de comando!

É legal notar que esse painel que as emoções usam para administrar a mente das pessoas vai ficando complexo com o passar do tempo. No começo, Riley tinha um painel simples, em que só uma emoção era capaz de ocupar – daí a primazia da Alegria. Com o amadurecimento, o painel aumenta e as emoções comandam juntas, como pode ser observado nos pais de Riley e, mas para o fim do filme, na própria garotinha. Com o painel mais complexo, as memórias podem ser formadas por sentimentos mistos (ou seja, por mais de um sentimento por lembrança, dando vazão a toda uma nova gama de emoções).

Por fim, mas não menos importante, o filme não fala sobre, mas faz com que experimentemos empatia. Empatia é a habilidade que temos de nos colocar no lugar do outro e sentir e pensar como se fossemos ele. É impossível não empatizar com Riley, não se lembrar de algo que aconteceu em nossas vidas em que reagimos da forma assim ou assado como o próprio filme mostra (principalmente em relação às reações mais bruscas das emoções).

Para os interessados em psicologia, o filme é diversão pura. E para os profissionais, fica a dica para psicoeducação de pacientes sobre emoções, valores, aceitação, depressão e um monte de outras coisas. Fora a diversão de assistir cenas hilárias sobre corredores de memórias antigas, amigos imaginários da primeira infância, inconsciente e, é claro, sobre sonhos! Enfim, o Psicologia Explica de fato tenta explicar e recomenda Divertida Mente.

Olha aí o trailer pra ver como é legal:

 E você, que já viu o filme, o que achou? Ficou com alguma dúvida? Quer bater um papo? Deixa um comentário aqui pra gente!

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comentários

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Jessye Cantini

Psicóloga (CRP 05/40442) pela UFRJ, Terapeuta Cognitivo-Comportamental, Mestre em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB/UFRJ). Atua como psicóloga clínica em consultório particular. Membro da Associação de Terapeutas Cognitivos do Rio de Janeiro e da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas. Seus principais temas de estudo são os transtornos de ansiedade e de humor (com ênfase em transtornos fóbicos), além de seus respectivos tratamentos.

  • Denis

    A primeira emoção deveria ser a Tristeza e não a Alegria. Talvez por uma questão de roteiro (deixar a Alegria como a “Líder’ por ser a primeira) foi colocado desta forma. No filme não mostra quando os bebês nascem chorando com uma expressão universal de horror e dor, portanto não nascemos alegres e sim mais próximos da tristeza, fato já observado pelo psicanalista Otto Rank em seu livro O Trauma do Nascimento, publicado no começo do século passado.

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