Cultura ou não-cultura, eis a questão!

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Acabei de acordar e senti a necessidade urgente de escrever, ou melhor, transcrever a mensagem de meu sonho. Às vezes resolvo meus problemas sonhando, às vezes tenho ideias nos sonhos. Essa me pareceu uma grande mensagem e gostaria de compartilhar. Algumas vezes sinto essa necessidade, e então porque não, escrever?!

Eu sonhei que estava conversando com uma grande amiga professora e ex-coordenadora da minha antiga escola. Enquanto conversávamos, falávamos sobre um professor figura emblemática, respeitadíssimo, destacável por seu conhecimento e que era igualmente muito arrogante. Todavia, esse professor não fazia parte de minha escola, mas sim de minha faculdade, o que se explica muito provavelmente graças ao que Freud chamaria de mecanismos de condensação e de deslocamento.

Em nossa conversa, minha amiga me dizia que a arrogância do distinto professor se devia a sua notável cultura, sua grande bagagem cultural. Ao ouvir isso, me lembrei, no sonho, de algumas cenas que presenciei com tal professor, e então respondi a ela. Esse professor até pode ser muito inteligente, e disso não questiono, por suas leituras, mas não é pela cultura, não tem bagagem cultural que explique a arrogância.

Minha amiga se espantou com minha fala e eu continuei a me explicar. A cultura está para além dos livros e da mera inteligência e não deve ser motivo de arrogância. A cultura é vivencial e relacional, no sentido de que deriva da experiência direta (vivências) e se estabelece a partir das relações entre pessoas. O fundamental, a base de toda cultura, é a relação com o outro. Não qualquer relação, mas uma relação de troca, de interação. Não adianta muito uma relação em que um domina o saber e não o partilha. Na verdade os livros servem para partilhar o saber construído socialmente.

Ainda exemplifiquei que embora uma pessoa possa nunca nem ter tido oportunidades de aprender a ler, e então, jamais ter lido livro algum, essa pessoa tem tanto ou mais cultura (se é que é possível mensurar nível e cultura, ao meu ver, não) do que até mesmo esse distinto professor. O mais interessante da cultura é isso, é que deveríamos entender que de fato, não existe uma cultura certa ou errada, existem várias culturas e várias formas de cultura, tanto macro-culturas: de países, estados, regiões diferentes; quanto micro-culturas: de famílias, de grupo de amigos. Podemos perceber isso que estou tentando explicar, quando pensamos na forma como criamos hábitos, manias, tradições em família, na escola, com um amigo, com uma namorada, cada forma de relacionamento com o outro é uma espécie de cultura. Uma professora minha dizia que para existir cultura basta apenas duas pessoas, e acho que essa frase resume bem a ideia que quero passar.

Como termina meu sonho? Eu não sei, eu lembro apenas que minha amiga dizia “mandou bem”, talvez fosse meu Id querendo mais atenção ou um reforço positivo (olha o pecado psicológico, Id e reforço positivo na mesma frase), mas não sei o que aconteceu depois porque eu acordei e sentindo muita vontade de escrever esse texto. Para finalizar, gostaria apenas de salientar que essa é a mensagem principal do sonho, como diria Vinicius de Moraes, “a vida só se dá para quem se deu”, é importante saber compartilhar, mais do que guardar para si, fica a dica!

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Renan Sargiani
Doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP), é Psicólogo (CRP/06 109086) e Bacharel em Psicologia (Universidade Cruzeiro do Sul) e Mestre em Psicologia da Educação (PUC-SP) e Atua principalmente nas áreas de Psicologia Escolar/Educacional, Psicologia Cognitiva, Neurociência Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento Humano. É fundador do Psicologia Explica e suas especialidades incluem: desenvolvimento cognitivo e da linguagem, alfabetização, desenvolvimento e educação infantil e avaliação de habilidades cognitivas.