“13 Reasons Why”, o suicídio e o desserviço à informação

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 **Não contém spoiler!

A nova série produzida pela Netflix, 13 Reasons Why, foca em um importante assunto – o Suicídio.

O seriado é uma adaptação do romance “Thirteen Reasons Why escrito por Jay Asher e conta a história de um jovem estudante do ensino médio que entra em contato com treze fitas deixadas por uma colega de escola que há pouco se suicidou. Tais fitas contam os motivos que levaram Hannah a cometer suicídio e as pessoas que influenciaram sua decisão.

Apesar de ser um tema delicado e bastante chocante, a série leva o assunto com certa tranquilidade e romantismo. Porém, é essencial que se converse sobre suicídio de maneira responsável e adequada. Portanto, vamos lá?

Estima-se que mais de um milhão de pessoas por ano tirem sua própria vida. É um número enorme e consequentemente um assunto de importantíssima relevância para a saúde pública. Apesar de ninguém estar imune a isso, alguns grupos como os jovens, os idosos e os socialmente isolados são os mais vulneráveis.

Por ser a morte um tema ainda envolto em muita dificuldade de ser discutido e um assunto que “se esconde”, alguém que tenta tirar a própria vida é tido como “louco” e nesse caminho que seguem as tentativas de explicar essa decisão tomada pelo indivíduo. Contudo, não há relação explícita – e total – entre transtornos psicológicos, psicopatologias e demências com o suicídio. As causas são múltiplas e complexas e não devem ser reduzidas a fatores orgânicos. Portanto, por se tratar de algo influenciado por diversas variáveis, podemos pensar em prevenção. E quando digo prevenção, não é somente conversar diretamente sobre o suicídio, mas sim pensar em desenvolvimento de repertório de enfrentamento.

Enfrentamento comportamental é definido como:

“a estratégia utilizada para reduzir o impacto negativo do estresse sobre o bem estar de um indivíduo. O desenvolvimento de estratégias bem sucedidas para a redução ou eliminação do evento estressante depende de fatores como experiência prévia, processos mediadores, variabilidade individual e previsibilidade. Assim, comportamentos adotados frente a eventos estressantes revelam processos associativos de aprendizado, vulnerabilidade ao ambiente, flexibilidade comportamental e tomada de decisões.” (Sobota, Karina Nicole, 2013).

Pensando então nesta definição, a prevenção do suicídio aborda o desenvolvimento de repertórios que o indivíduo usará para enfrentar o estresse e o evento aversivo, ou seja, as dificuldades da vida. Quanto mais preparado o indivíduo estiver para lidar com problemas, mais chance ele terá de não sofrer com o impacto do evento. Assim, quanto maior a variabilidade comportamental – o leque de opções de respostas do organismo – melhor ele saberá sair de uma situação aversiva sem sofrer tanto.

Claro que, como na definição, a história de vida e de contingências do indivíduo importa, mas não podemos encarar essa história como determinante, e sempre é tempo de desenvolvermos mais repertório e mais habilidades de enfrentamento. É importante então que a pessoa em sofrimento procure ajuda da família e de profissionais para que consiga encarar tais situações aversivas.

Na clínica, o psicólogo deve buscar os motivos que levaram a pessoa a pensar no suicídio e os prováveis déficits e excessos comportamentais que estão incluídos nessa decisão. E, sem desprezar o sofrimento real e os sentimentos envolvidos, ajudá-la a pensar em alternativas e desenvolver opções mais saudáveis de respostas frente ao desconhecido e aversivo.

Apesar de ser um assunto difícil e tido ainda como tabu por muitas pessoas, o suicídio deve ser discutido com responsabilidade. Ao contrário do que retrata a série aqui citada, não podemos encarar o assunto com romantismo e como uma forma de vingança. O tema é abordado com certo glamour e como algo pessoal e que não deve ser comentado, mostrando que buscar ajuda não é efetivo e nem deve ser feito pela pessoa em sofrimento.

Para finalizar, vejo que a ideia por trás do seriado “13 Reasons Why” poderia ser ótima: discutir um tema relevante, abordar questões como bullying e sofrimento entre jovens. Contudo tudo isso acaba sendo tratado de forma superficial e simplista, o que pode fornecer uma equivocada visão do sofrimento psicológico e suas formas de prevenção.

Podemos agora torcer para que a segunda temporada da série – se confirmada – venha com mais informações e seja mais colaboradora com questões importantes e sérias como o suicídio.

 

REFERÊNCIAS

 

Conselho Federal de Psicologia O Suicídio e os Desafios para a Psicologia / Conselho Federal de Psicologia. – Brasília: CFP, 2013. Disponível em www.cfp.org.br

Sobota, Karina Nicole. Análise da estratégia de enfrentamento comportamental (coping style) durante o condicionamento olfatório aversivo. Florianópolis, SC. 2013.

 

 

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Alice Frungillo Lima
Psicóloga (CRP 06/125168) formada pela Universidade Federal de São Carlos, terapeuta comportamental, especialista em Terapia por Contingências de Reforçamento. Tem experiência com atendimento de crianças, adolescentes e adultos e acompanhamento terapêutico nas áreas de habilidades sociais, manejo de contingências e hábitos de estudo. Atualmente trabalha na área clínica no Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR - Campinas) e na Sociedade Campineira de Atendimento ao Deficiente Visual (Pró-Visão) com atendimentos para deficientes visuais e família. É supervisora de atendimentos clínicos no curso de Formação de Terapeutas Comportamentais no ITCR – Campinas, além de monitora do curso de Princípios Avançados do Comportamento do Curso de Especialização em Terapia Comportamental.